Cultura

Sexta-feira da Paixão: será que Judas realmente existiu?

Na data em que se lembra a crucificação de Jesus Cristo, entenda se o apóstolo mais controverso pode ter existido ou ser apenas ficcional

Por Da Redação  em 15 de abril de 2022

O beijo de Judas em Jesus no Jardim de Getsêmani, em Jerusalém, selou o destino do messias dos cristãos (Foto: Wikimedia/Galeria Nacional da Irlanda/Domínio Público)

 

De acordo com o Novo Testamento, a Bíblia cristã, Jesus foi preso pelas autoridades romanas por afirmar ser o filho de Deus, embora alguns historiadores modernos sugiram que ele foi detido por ser uma ameaça ao império na região da Judeia. No entanto, antes de sua prisão, todos os quatro evangelhos canônicos afirmam que Cristo foi traído por Judas ao Sinédrio (espécie de tribunal judeu) no Jardim do Getsêmani, em Jerusalém, Israel. Diz-se que Judas beijou Jesus e se dirigiu a ele como um “rabino” para expor sua identidade às autoridades.

Com isso, Cristo foi então condenado à morte por Pôncio Pilatos, o prefeito romano na província da Judeia. Após a crucificação, o corpo de Jesus foi retirado da cruz e sepultado em uma caverna, com a entrada fechada por uma enorme pedra para evitar que alguém roubasse seu corpo.

No entanto, três dias depois, algumas mulheres visitaram o local e descobriram que a pedra havia sido removida e que o túmulo estava vazio. Jesus foi então visto por várias pessoas após sua morte, o que, para os apóstolos, é a prova de que ele era o filho vivo de Deus.

O jornalista e escritor americano Tom Bissell escreveu o livro Apóstolo: Viagens entre os Túmulos dos Doze para descobrir se os 12 apóstolos de Cristo eram figuras históricas reais ou personagens meramente fictícios.

Bissell caminhou os 800 km da famosa rota de peregrinação do Caminho de Santiago, no norte da Espanha, para descobrir o misterioso mosteiro onde se acredita que o apóstolo Mateus esteja enterrado.

O escritor também visitou o lugar onde Judas, dominado pelo remorso por sua participação na morte de Jesus, teria se enforcado em Israel.

De acordo com o tabloide britânico Daily Express, no livro, Tom Bissell descreve Judas como o “eletroímã da maldade”, no entanto, mais tarde, numa entrevista, ele duvidou da existência do famigerado discípulo.

Quando questionado se acreditava que Judas era uma pessoa histórica real, o jornalista americano responde: “Essa é uma pergunta muito espinhosa. De acordo com a tradição, embora a escritura não seja clara sobre isso, Judas se enforcou em um lugar chamado Akeldama, no Vale de Hinom, que é um vale rochoso e deserto na parte sul de Jerusalém. Quando você vai lá, realmente parece um lugar amaldiçoado. Esse é o poder das histórias. Você sente os séculos de ódio e desgosto por essa pessoa que traiu Jesus”, diz, citado pelo tabloide.

Ainda conforme Bissell, quanto ao fato de Judas ser real, provavelmente a verdade é que Jesus foi traído por alguém. “Se o nome dele era Judas ou não é uma questão muito mais complicada. Suspeito que os amplos contornos da história de Judas, como os escritores dos evangelhos a delinearam, são provavelmente ficção”.

Ele lembra que há mais inconsistências nos evangelhos que tratam da história de Judas do que nos que descrevem outras partes da história de Jesus.

“Em muitas outras histórias de Cristo, os escritores do evangelho parecem seguir o mesmo tom. Mas com Judas eu acho que eles tinham muito menos matéria-prima para trabalhar, então trataram do jeito deles. Isso sugere que era mais um personagem fictício do que uma pessoa real”, comenta Tom Bissell, segundo o Daily Express.

No livro sobre os 12 apóstolos, o jornalista e escritor alega que há um conflito fundamental dentro da fé cristã, especialmente pela reivindicação de legitimidade histórica, mas a existência de todos os discípulos de Jesus, “testemunhas oculares mais cruciais da fé”, é incerta.

Ele afirma que, embora seja provável que Pedro, João e Tiago, irmão de Jesus, fossem pessoas reais, não há evidências para verificar a existência da maioria dos apóstolos além das informações presentes no Novo Testamento.

“Um dos grandes mistérios da história cristã primitiva é que sabemos bastante sobre Paulo e sabemos que Tiago, o irmão de Jesus, era uma pessoa real. No entanto, nenhum deles é membro dos 12. Então você tem essas 12 pessoas que foram os primeiros seguidores de Jesus, mas não há nada sobre eles em nenhuma fonte secular. As cartas de Paulo mencionam tanto Pedro quanto João, o que sugere que eles eram figuras históricas e não apenas nomes”, comenta Bissell, citado pelo tabloide.

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