Ciência

Abelhas da espécie jataí criam "barreira sanitária" para impedir que companheiras infectadas entrem na colmeia

Cientistas da USP descobriram a incrível capacidade das vigias da espécie jataí de reconhecer a presença de um fungo perigoso

Por Da Redação  em 12 de abril de 2022

A abelha da espécie jataí é capaz de reconhecer se um membro da colmeia está infectado por fungo (Foto: Wikimedia/Demeter/Creative Commons)

 

Um estudo realizado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (USP), publicado na edição de janeiro da revista científica Chemosphere, revela que as vigias das abelhas jataí (Tetragonisca angustula), que controlam o acesso à colmeia, sabem identificar se um membro da “família” está contaminado com o fungo Beauveria bassiana, não permitindo a entrada de infectados.

Por não ter ferrão, ser dócil e produzir um mel muito apreciado, a jataí é muito valorizada no Brasil, sendo endêmica da América Latina. “Ela é uma importante abelha polinizadora, não só de culturas agrícolas, mas também de várias espécies de plantas silvestres. Além do papel ecológico, devido à polinização, existem muitos criadores de jataí, em grande parte devido ao mel produzido, o que faz com que a espécie tenha uma alta importância socioeconômica no Brasil”, comenta a pesquisadora Denise Alves, uma das autoras do estudo, citada pelo Jornal da USP.

A especialista explica que, como as abelhas buscam alimento no campo, acabam sendo expostas a pesticidas agrícolas, químicos ou biológicos. No experimento atual, foram analisados o comportamento e composição química dos insetos, focando no reconhecimento de companheiras pelas guardas das colmeias das jataís. “As guardas são abelhas 30% maiores e possuem antenas mais longas do que as demais operárias. Já se sabe que as guardas controlam a entrada das abelhas forrageiras, ou seja, daquelas que vão para o campo, impedindo a entrada das que não pertencem ao ninho”, diz a pesquisadora.

Os cientistas descobriram que o fungo Beauveria bassiana, usada como biopesticida, modifica o perfil químico dos corpos das abelhas, permitindo a identificação pelas vigias. “As guardas possuem uma espécie de ‘padrão’ dos odores das companheiras de ninho e, quando há alguma alteração na composição química na cutícula [reveste o corpo] dessas abelhas, elas detectam essa diferença e impedem a entrada. Assim, as guardas funcionam como uma ‘barreira sanitária’, impedindo que abelhas com esporos do fungo entrem em seus ninhos e esse fungo se espalhe e infecte as outras abelhas”, explica Denise Alves ao Jornal da USP.

A pesquisadora conta que um estudo similar foi realizado na Itália, mas analisando abelhas com ferrão (Apis melifera). Nesse caso, os cientistas descobriram que as vigias dessa espécie aceitam abelhas expostas ao fungo, o que aumenta as chances da transmissão do patógeno entre as colônias. “Na jataí, considerando que as guardas são maiores e têm antenas mais longas, nossa hipótese foi de que elas seriam capazes de detectar e reconhecer as companheiras de ninhos contaminadas, diferentemente do que ocorreu em Apis melifera”, afirma a pesquisadora da USP.

(Com Jornal da USP)

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