Bem-Estar

Cientistas criam probiótico capaz de impedir a evolução de doenças autoimunes no cérebro

Por meio de testes com cobaias, o estudo descobriu que a produção de lactato no intestino pode proteger o cérebro contra esclerose múltipla

Por João Paulo Martins  em 21 de agosto de 2023

(Foto: Freepik)

 

Pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Harvard, nos EUA, criaram um probiótico que seria capaz de impedir o surgimento de doenças autoimunes no cérebro, que ocorre quando o sistema imunológico ataca as células do sistema nervoso central. A novidade, testada em cobaias, foi apresentada em estudo publicado em 9 de agosto na revista Nature.

Várias doenças neurodegenerativas são consideradas autoimunes, como a esclerose múltipla. Na pesquisa, os cientistas demonstraram que o tratamento preventivo desses problemas oferece uma maneira mais precisa de atingir a inflamação cerebral, minimizando os efeitos colaterais das terapias tradicionais.

“Os probióticos modificados podem revolucionar a maneira como tratamos doenças crônicas. Quando um remédio é ingerido, sua concentração na corrente sanguínea atinge o pico após a dose inicial, mas depois diminui. No entanto, se pudermos usar micróbios vivos para produzir fármacos dentro do corpo, essa produção se torna contínua, conforme necessidade, o que é essencial quando consideramos doenças que surgem ao longo da vida e demandam tratamento constante”, diz o pesquisador Francisco Quintana, principal autor do estudo, citado pelo site da universidade americana.

Doenças autoimunes como a esclerose múltipla são particularmente difíceis de tratar porque muitas terapias farmacológicas não conseguem quebrar a chamada barreira hematoencefálica, uma rede de células que protege o cérebro contra substâncias tóxicas ou micro-organismos transmitidos pelo sangue.

No estudo recente, os pesquisadores analisaram um grupo de células conhecidas como dendríticas, pertencentes ao sistema imunológico e que são abundantes no trato gastrointestinal e ao redor do cérebro. Mas os cientistas ainda não entendem o papel dessas células nas doenças autoimunes. Analisando a atuação das dendríticas no sistema nervoso central de camundongos, foi possível identificar uma via bioquímica que elas usam para impedir que outras células imunológicas ataquem o corpo.

“O mecanismo que encontramos é uma espécie de freio para o sistema imunológico. Na maioria de nós, ele está ativado, mas em pessoas com doenças autoimunes, há problemas nessa ‘frenagem’, o que significa que o corpo não tem como se proteger de seu próprio sistema imunológico”, explica Quintana ao site da Escola de Medicina de Harvard.

Cientistas descobriram que esse freio bioquímico pode ser ativado com lactato, uma molécula envolvida em muitos processos metabólicos. Para testar essa hipótese, bactérias probióticas foram modificadas geneticamente para produzir lactato.

A equipe testou o probiótico em cobaias com uma doença autoimune parecida com a esclerose múltipla e descobriu que, embora as bactérias vivam no intestino, elas reduziram os efeitos da condição no cérebro. Elas não foram detectadas na corrente sanguínea dos camundongos, sugerindo que o efeito observado foi resultado da interação bioquímica entre o intestino e o cérebro.

Apesar dos resultados animadores, os cientistas alertam que o organismo das cobaias não equivale ao dos humanos. Portanto, as descobertas ainda precisam ser replicadas em estudos maiores e, eventualmente, em voluntários. Mas eles estão otimistas de que a abordagem pode se tornar uma terapia futura porque a cepa da bactéria que usaram para criar o probiótico já foi testada em pessoas.

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